Caos, por Rúbia Gondim

Quando tudo dá errado, vem a matemática e te prova que você não sabe de nada: “tudo” é relativo; existe sempre algo mais pra dar errado. E dá.

Aí, quando se está com os nervos à flor da pele e a dúvida que predomina é “ligo pro chefe ou pro cardiologista”, aparece uma velhinha falando proparoxítonas pelos cotovelos, e te faz dizer o que sua avó se envergonharia só de ouvir. Que feio.

“Calma, jornalista”, imperativo categórico.

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O louco nem sempre é (somente) o paciente, por Flávio Neponucena

O paciente fleumático se deitou no divã, e, absorto em recônditos pensamentos, não pronunciou uma palavra sequer. O psicanalista, um homem que, segundo Salvador Dalí, tinha um “belo crânio de caracol”, estava impaciente. Por mais que Freud incitasse seu circunspecto cliente a falar, ele continuava calado. Passaram-se trinta minutos, uma hora… E nada. O silêncio era deveras perturbador. O pináculo da situação foi quando Freud, irritado, exclamou:

— Quer saber, você é doido. Dá o fora daqui!

E o homem, com uma calma de fazer inveja aos hippies de Woodstock, disse:

— Eu não sou doido, eu sou Jesus!

E Freud, que deixou uma ínfima lágrima cair dos olhos, alegrou-se:

—Tu és Jesus? Até que enfim… Vem cá e dá um abraço no teu pai, moleque!

 

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Tão breve quanto o Sábado, por Rúbia Gondim

Eram 11:59 de um Sábado a noite. A lua estava cheia. A casa estava vazia e silenciosa. O cachorro dormia. E ela pensava. Ela, a Menina de olhos assustados, estava sentada em sua cama com mil pensamentos, totalmente perdida dentro de si. Não queria mais lembrar da lua da noite anterior e decidiu fechar os olhos e imaginar o sol. Dormiu.

Na frente de um lago, com o céu azul e limpo, com a brisa soprando leve, a Menina abriu seus braços e esboçou um sorriso para os Deuses, Orixás, Estrelas do infinito, pra Mãe e pro Pai de todos os santos. Não importava qual divindade existia, o importante era sorrir em agradecimento ao dia. Mais um dia. Bom. Muito bom.

Abaixou seus braços e abriu os olhos. Tudo que viu do céu foram as estrelas de neon na parede de seu quarto. Era um sonho. O tempo inteiro imagens feitas pela sua cabeça. Apenas um sonho.

Levantou. Fez café e fumou um cigarro. Esperou Domingo nascer para começar a odiar Segunda. Fez anotações em seu velho livro de lembranças e voltou para o velho jogo de sorrir.

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Essa vida que me pariu, por Rúbia Gondim

Essa vida que me pariu há 22 anos me deixou coberta de sangue, quase sem ar, pelada, confusa e assustada nas mãos de um completo estranho na primeira oportunidade que teve. Passei nove meses – 5 deles tão atônita que nem me mexi – dentro do ventre de uma pessoa que, sem que eu fizesse esforço algum, cuidou de mim sem pedir referências ou ler meu currículo. Nove meses me esperando e nem a dei a honra de ser a primeira a me ver. Ingrata desde o princípio.

A vida abriu as pernas para milhares. Deu parte dela a tantos. Irou-se com uns filhos devassos. Deu o mesmo cuidado a filhos puros e bastardos. Nunca aceitou os pródigos. O mal dos que tem muitos filhos é que, se de um lado suprem a sua própria necessidade de serem completos, por outro roubam espaços gigantescos dentro de cada ser. Um vazio sem fim, dentro de um corpo limitado. Paradoxo.

Essa vida, pelas esquinas nas madrugadas, leva a conta a quem passa dos limites. Embriaga de desejo os famintos de realizações pessoais. Fadiga os que tentam acreditar que vale à pena. Será que vale?

Tu, Vida, me embriagaste e me viciastes em ti.

Por que me corrompe a seu bel prazer se sou descartável? Se me tens apenas por uma hora como se fosse uma meretriz a espera do próximo inocente disposto a tudo para ser feliz contigo? Por que, se sabe que meu ar é breve?

Se reclamarem de meu comportamento, a culpa é sua, Vida! Toda sua. Foi você que me pariu. Mandarei, de agora por diante, reclamarem a ti.  “-Reclamem à Puta que me pariu!”

Não quero parecer ingrata. É que me entristece apagar velas. Apagar luzes. Sabes que luz representa vida? Estaria eu a apagar um ano de ti em mim? Isso me entristece; não sei expressar tristeza da forma correta. Se você, Vida, fosse um livro dividido em capítulos, iria explicar essa parte apenas no penúltimo capítulo… ainda falta muito – assim espero.

Não sou de me alongar em elogios, nem sou boa em agradecimentos. Deixemos assim, então: “que seja eterno enquanto dure” essa vida, Vida. Que seja boa na medida do possível. Aliás, que SEJA. Apenas seja. Subjetivo? Sim, era a intenção.

Uma música para celebrar (ou seria para pensar?):

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Filosofia Lulista, por Flávio Neponucena

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O Realismo Fantástico de Franz Kafka, por Flávio Neponucena

O Processo é uma das obras mais importantes de Franz Kafka. Nessa narrativa, Josef K, personagem central da obra, é sentenciado, sem justificativa aparente, no dia de seu aniversário de 30 anos. Kafka dirige-se a Josef K. apenas como K., o que talvez seja uma forma de denominar K como uma abreviação de Kafka..

Josef K. é o segundo funcionário mais importante do banco onde trabalha, e não obstante das preocupações de seu trabalho, tem que lidar com um processo judicial onde ele é o réu, e sem saber o porquê de tal acusação, mergulha em outro processo: o psicológico. O livro retrata personagens cotidianos, como a dona da pensão onde ele mora, a senhorita Grubach, de “curiosidade verdadeiramente senil”; Fräulein Bürstner, uma jovem que mora na mesma pensão que K.,e deposita nele certa atração, além de vários advogados sem muito compromisso com o acusado. O grande destaque fica para o Tio Karl. Analisando profundamente, o despotismo de Karl pode ser comparado ao pai repressivo do autor, o qual Franz identificava aspectos tirânicos.

O personagem K. serve como um elo entre a corrupção e a insegurança que existe no tão “correto” Estado de Direito. É uma severa crítica às leis que funcionam apenas no papel, mas que na realidade servem de pretexto para controlar as pessoas que não possuem defesa de qualquer natureza. Um livro que demonstra não uma causa sem efeito, mas um efeito sem causa. Formado em Direito, Kafka exercia suas funções no mundo jurídico de forma exemplar, sendo inclusive promovido duas vezes.

Porém, sentia-se insatisfeito com a profissão, que lhe tirava grande tempo em que podia se dedicar aos livros, chegando a afirmar que odiava “tudo aquilo que não é literatura”.Talvez a obra seja uma ironia àquilo que tanto fazia apenas por obrigação, e não por prazer. Ele distorce o mundo jurídico, criando um ar um tanto non sense, fazendo o personagem principal passear sobre as situações mais ilógicas possíveis, em ambientes sujos e abafados, diferentes dos grandes tribunais de um enredo lógico.

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